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Da Carga de Açúcar Devorada à Cidade Imperial: Como Surgiu Formiga

O surgimento de Formiga (MG) entrelaça lendas de beira de estrada com a geopolítica do ciclo do ouro no Brasil do século XVIII. Nascida inicialmente como ponto estratégico de pouso e abastecimento para viandantes que marchavam rumo às minas de Goiás, a localidade transitou de um arraial rústico com capela de taipa até sua solene elevação a município em 1858. Esta reportagem documental resgata os manuscritos, censos e atas do acervo comemorativo dos 150 anos da cidade, detalhando como a fé e as rotas tropeiras fundaram o centro urbano formiguense.

RuiWenceslau de Oliveira
Por RuiWenceslau de Oliveiraverified Verificado
Cofundador e EditorPublicado em 17 de setembro de 2026
Igreja da Matriz de Formiga MG com símbolo da cidade no canto superior esquerdo.
Crédito: Gustavo de Castro para Jornal Voz da I.A
  • Do inusitado ataque de insetos às sacas de tropeiros à expedição do naturalista Saint-Hilaire em 1819, documentos históricos revelam a marcha colonial que transformou um rancho de pouso na "Princesa do Oeste" mineiro.

1. A Lenda dos Tropeiros: O Batismo Inusitado no Sertão

A toponímia de Formiga preserva uma das narrativas mais pitorescas do período colonial mineiro. Ao longo de sua formação, a localidade recebeu diversos nomes formais — como Rancho de Formiga, São Vicente Férrer de Formiga, Formiga do Tamanduá e Vila Nova de Formiga —, mas o vocábulo "Formiga" permaneceu inalterado.

A tradição oral consagrada pelos primeiros povoadores narra que uma comitiva de tropeiros, cortando o sertão inexplorado das Minas Gerais com tropas carregadas de víveres, decidiu acampar às margens de um curso de água límpida para passar a noite. Ao despertarem pela manhã, depararam-se com um formigueiro voraz que havia rompido as bruacas e devorado sacas inteiras de açúcar e mantimentos essenciais da comitiva.

O prejuízo foi tamanho que os viajantes batizaram o local imediatamente de Rancho da Formiga e o ribeirão adjacente de Ribeirão da Formiga. O nome de batismo popular pegou de tal forma entre os viandantes que acabou se fixando de maneira permanente no arraial que ali floresceu.

2. O Ciclo do Ouro em Goiás e as Rotas de Pouso (Século XVIII)

Mais do que uma anedota de estrada, o assentamento humano no território formiguense obedeceu à necessidade logística da Coroa Portuguesa no século XVIII. Com a descoberta das ricas jazidas de ouro na capitania de Goiás, abriu-se um intenso tráfego entre o litoral, as cidades históricas mineiras e o Centro-Oeste brasileiro.

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│          ROTAS DO OURO E ABASTECIMENTO (SÉC. XVIII)         │
│          Deslocamento contínuo de tropas para Goiás         │
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│           POUSO ESTRATÉGICO NO RIBEIRÃO DA FORMIGA          │
│   • Ponto de água potável, pasto e abrigo para tropeiros    │
│   • Troca de animais exaustos e compra de mantimentos       │
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│            FORMAÇÃO DO ARRAIAL E NÚCLEO URBANO              │
│   • Fixação dos primeiros posseiros e sesmeiros             │
│   • Erguimento da primeira capela rústica (1749)            │
│   • Fundação de São Vicente Férrer de Formiga               │
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Os núcleos populacionais da região ergueram-se a partir de três motores: a mineração direta, a fé comunitária e os pontos de descanso. Formiga consolidou-se fundamentalmente como um entreposto de pouso e suporte, onde o tropeiro encontrava milho, pousada rústica e ferraria para dar continuidade às longas viagens sertanejas.

3. O Ancião de 1749 e o Testemunho de Saint-Hilaire (1819)

A historiografia clássica costumava creditar a fundação a João Caetano de Souza, que exerceu papel primordial na posterior organização administrativa. Documentos e relatos de época, contudo, provam que a ocupação do solo ocorreu muito antes.

Em 1819, o consagrado botânico e naturalista francês Auguste de Saint-Hilaire atravessou o arraial durante suas expedições científicas e registrou suas impressões na clássica obra Viagem às Nascentes do Rio São Francisco. No livro, Saint-Hilaire anotou o depoimento de um ancião centenário que residia na localidade. O pioneiro declarou categoricamente ter sido um dos primeiros habitantes a se fixar naquelas paragens por volta de 1749 — momento exato em que os primeiros devotos deram início ao erguimento da primitiva capelinha devotada a São Vicente Férrer.

4. A Fé que Aglutinou a Vila: Padre Salvador Paes Godoy

A expansão civil de Formiga caminhou de mãos dadas com a presença eclesiástica. Em 7 de janeiro de 1771, quase uma década antes da provisão episcopal formal (concedida em abril de 1780), o reverendo Padre Dr. Salvador Pais Godoi já registrava o batizado de um menino de nome Vicente na antiga capela de taipa, ato documentado nos livros paroquiais da Diocese de Divinópolis.

O Padre Dr. Salvador Paes Godoy dos Passos tornou-se a liderança incontestável daqueles primeiros anos. Ele comandou a comunidade por 15 anos consecutivos, assentando as bases sociais que culminaram na ereção da paróquia formal em 1832.

Em 1838, o arraial já reunia a impressionante marca demográfica de 6.290 habitantes. A pujança populacional levou à sua elevação à categoria de vila em 1839 com o nome de Vila Nova de Formiga, marco que viabilizou o projeto da Matriz de São Vicente Férrer — templo histórico cuja nave seria enriquecida nos anos 1920 pelas mãos do célebre pintor veneziano Angelo Pagnaco.

5. A Carta de 1858: A Certidão de Nascimento Política

Após quase duas décadas operando como vila autônoma sob o comando do capitão João Caetano de Souza, Formiga conquistou definitivamente seus foros de cidade imperial. Em 6 de junho de 1858, o Presidente da Província de Minas Gerais, Conselheiro Carlos Carneiro de Campos, sancionou a histórica Lei Provincial que selou a certidão política do município:

"Faço saber a todos os seus habitantes que a Assembléia Legislativa Provincial decretou e eu sanciono a Lei Seguinte: Art. Único. Fica elevada à categoria de cidade a Vila Nova de Formiga, e revogadas as disposições em contrário. Mando, portanto, a todas as autoridades [...] que a cumpram e a façam cumprir tão inteiramente como nela se contém."

6. A Memória no Escudo Municipal

Essa síntese histórica e geográfica está estampada em cada quartel do Brasão de Armas Oficial de Formiga:

  • O Gibão, o Machado e o Arcabuz: Honram a memória do bandeirante Lourenço Castanho, precursor dos desbravamentos nos sertões da comarca.
  • A Estrela e a Coroa: Homenageiam o Sargento-Mór João Gonçalves Chaves (pioneiro do povoamento) e o Conde dos Arcos.
  • A Fachada da Matriz e a Formiga Obreira: Eternizam tanto a devoção centenária de São Vicente Férrer quanto o espírito operoso da população trabalhadora e a lenda do nome.
  • As Águas Ondadas: Lembram os rios Formiga e Mata Cavalos, artérias hídricas que sustentaram o início da civilização no Centro-Oeste mineiro.

Conclusão

O surgimento de Formiga não foi fruto do acaso, mas da resiliência de homens e mulheres que viram um ribeirão infestado por formigas se transformar em uma artéria econômica do ciclo do ouro. Resgatar a documentação primária desse sesquicentenário é compreender que, muito antes dos trilhos e do asfalto moderno, a "Princesa do Oeste" nasceu da poeira dos tropeiros e da fé incontestável de seus primeiros desbravadores.

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Nota Editorial: Este artigo reflete a visão cultural e opinativa do autor, tendo caráter exclusivamente informativo e filosófico. Não se trata de prestação de serviços comerciais.

menu_bookFontes e Referências

Acervo Comemorativo dos 150 Anos de Formiga: Dossiê 150 Anos de História / 150 Anos de Formiga (1858–2008) — Edição especial transcrita e catalogada. Saint-Hilaire, Auguste de: Viagem às Nascentes do Rio São Francisco (Relatos da expedição de 1819 pelo sertão de Minas Gerais). Arquivo Eclesiástico da Diocese de Divinópolis: Livro 119 de Registros Paroquiais da Capela de São Vicente de Férrer de Formiga (Assentos de 1771 e 1780). Arquivo Público Mineiro (APM): Carta Provincial de 6 de junho de 1858 — Chancelaria do Presidente da Província Carlos Carneiro de Campos.
RuiWenceslau de Oliveira
RuiWenceslau de Oliveira
Especialista em criação de conteúdo para mídias sociais e jornalismo digital.