A construção do Executivo formiguense: Das intendências imperiais ao republicanismo
A trajetória administrativa de Formiga reflete as transformações socioeconômicas vividas por Minas Gerais e pelo Brasil ao longo dos séculos XIX, XX e XXI. Quando o antigo arraial foi elevado à categoria de vila em 1839 com o nome de Vila Nova de Formiga, estruturou-se a necessidade de um ordenamento civil sistemático para delimitar ruas, normatizar o comércio vicinal e organizar o poder público local.
Nascia ali a figura do intendente e do presidente da Câmara com funções executivas, formato que vigorou durante o Império e atravessou a Proclamação da República até a consolidação formal das prefeituras modernas.
"Ao longo de quase dois séculos de autonomia política e administrativa, o Poder Executivo formiguense foi conduzido por lideranças com perfis plurais: médicos humanistas, sacerdotes, juristas e articuladores comunitários que imprimiram sua marca no traçado urbano e social da cidade." — Dossiê Histórico: 150 Anos de Formiga (MG).
Essa diversidade profissional e técnica permitiu que o município superasse o isolamento geográfico típico do interior colonial, alçando posições de vanguarda no cenário estadual e regional.
Curiosidades e marcos dos líderes do Império e da Primeira República
Durante os períodos imperial e da República Velha, os governantes formiguenses enfrentaram a tarefa de erguer as bases físicas da comarca, muitas vezes acumulando liderança política com ações científicas e cívicas de repercussão expressiva:
- João Caetano de Souza (1839–1845; 1849–1852): Primeiro chefe do Executivo da então Vila Nova de Formiga, foi o responsável pelas posturas inaugurais do município, ordenando as primitivas vias públicas e garantindo a estruturação inicial dos serviços de saneamento básico e alinhamento urbano.
- Comendador Wenceslau Alves Belo (1856–1860): Governou a vila exatamente durante a transição que a elevou à categoria solene de Cidade em 6 de junho de 1858, sob decreto sancionado pelo Conselheiro Carlos Carneiro de Campos.
- Dr. José Carlos Ferreira Pires (1883–1887): Médico humanista de notável erudição, entrou para a história médica internacional ao importar da Alemanha, em 1897, o primeiro aparelho de raios-X em operação da América do Sul. Diante da ausência de eletricidade pública na época, ele adaptou um motor a gasolina para fazer a máquina operar, instrumento hoje exposto no Museu Internacional de Ciências Cirúrgicas de Chicago.
- Padre Antônio Olímpio Ribeiro de Souza (1887–1889): Sacerdote e homem público respeitado, exerceu o mandato no desfecho do regime monárquico, unindo a liderança comunitária das paróquias à gestão pública com foco no amparo aos desvalidos e na conciliação social.
- Barão de Piumhi (João Marciano de Faria Pereira) (1892–1897): Titular do Império que soube conduzir a transição pacífica para a República em âmbito municipal, estruturando os cartórios locais e as primeiras repartições republicanas na cidade.
- José Bernardes de Faria (1898–1908; 1912–1913): Notabilizou-se pela permanência de mais de uma década na intendência, estabelecendo obras de canalização de águas, pontes e estradas rurais para facilitar o escoamento agrícola.
- Cel. José Gonçalves D'Amarante (1913–1918): Líder da transição para a modernidade do início do século XX, incentivou a expansão ferroviária e os primeiros estudos para iluminação pública.
A Era da Redemocratização: Médicos e visionários urbanos
Com as transformações ocorridas a partir da década de 1930 e a posterior redemocratização de 1945, Formiga passou por um surto significativo de industrialização e investimentos sanitários:
- Cel. José Justino Rodrigues Nunes (1932–1937; 1947–1950): Administrou tanto como mandatário nomeado quanto como prefeito eleito pelo voto direto, coordenando as homenagens cívicas e modernizações escolares da Era Vargas no município.
- Dr. Leopoldo Corrêa (1945): Embora tenha exercido um mandato breve no pós-Segunda Guerra Mundial, seu legado como médico e incentivador do lazer popular deu nome ao principal parque e cartão-postal urbano do município, carinhosamente conhecido pela população como Praia Popular.
- Dr. Sócrates Bezerra de Menezes (1951–1955): Médico pioneiro cuja visão sanitarista priorizou a ampliação do atendimento ambulatorial nas regiões periféricas e os cuidados pediátricos no Centro-Oeste.
- Dr. Ari Aluísio Soares (1955–1959): Conduziu as grandes solenidades comemorativas do Centenário de Formiga em 1958, período no qual foi oficializado o célebre Hino da Cidade, composto por Rui Peirão e Nhonhô Fonseca.
- Mariano Silva (1959–1962; 1967–1970): Notabilizou-se por sua capacidade de aglutinação política, sendo eleito em pleito de candidatura única no final dos anos 1960 com ampla aprovação social voltada ao calçamento de vias centrais.
- Luiz Rodrigues Belo Primo (1963–1967): Grande fomentador da vocação pecuária da região, foi homenageado com o nome do Parque de Exposições municipal devido ao seu entusiasmo pelo setor agropecuário.
- Arnaldo Barbosa (1971–1972): Primeiro vice-prefeito na história política local a ser eleito prefeito na disputa sucessória seguinte, fortalecendo a continuidade dos serviços públicos.
- Lufrido Nascimento de Oliveira (1973–1977): Engenheiro que focou esforços no planejamento territorial, abrindo loteamentos e preparando o sistema viário para a expansão automotiva.
- Antônio da Cunha Resende ("Ninico") (1977–1983): Teve mandato de seis anos em razão da legislação eleitoral da época, notabilizando-se por aproximar os distritos rurais como Pontevila e Albertos da sede urbana com melhorias viárias.
A Nova República e os governos do século XXI
Nas últimas quatro décadas, o Executivo municipal lidou com os desafios da descentralização fiscal, a consolidação do Sistema Único de Saúde (SUS) e o fortalecimento do turismo e da sustentabilidade ambiental:
- Eduardo Brás Neto Almeida (1983–1989; 1996–2000; 2016): Uma das trajetórias mais longevas da política formiguense, comandou a cidade em diferentes décadas; sob sua liderança nos anos 1980, o município buscou investimentos estruturais para canalização pluvial e enfrentou o histórico episódio do bombardeio acidental por caças da FAB em 1987, que culminou em indenização aos cofres públicos.
- Juarez Eufrásio de Carvalho (1993–1996; 2001–2004): Administrou em dois mandatos pontuados pela modernização dos equipamentos da rede municipal de ensino fundamental e pela atração de investimentos comerciais para o comércio regional.
- Aluísio Veloso da Cunha (2005–2012): Conquistou a reeleição democrática, conduzindo os festejos históricos do Sesquicentenário de Formiga (1858–2008) e intermediando a implantação de importantes núcleos de ensino superior e técnico federal na cidade.
- Eugênio Vilela Júnior (2017–2024): Administrador de formação e ex-vereador, exerceu dois mandatos sucessivos pautados pelo equilíbrio fiscal, modernização do aterro sanitário e digitalização dos serviços municipais. Sua gestão destacou-se pela condução célere e equilibrada no enfrentamento da pandemia de COVID-19, período em que liderou a criação do Comitê de Enfrentamento, ampliou leitos hospitalares em parceria com a Santa Casa de Caridade, coordenou uma logística exemplar de vacinação e instituiu auxílio financeiro emergencial municipal em sintonia com a Câmara de Vereadores.
- Coronel Laércio dos Reis Gomes (2025–2028): Oficial reformado da Polícia Militar com vasta atuação no comando do 63º Batalhão, eleito em primeiro turno com foco em segurança pública cidadã.
A memória institucional como patrimônio formiguense
- O resgate histórico dos governantes de Formiga não se limita a um rol de datas e mandatos: ele evidencia como cada decisão de planejamento moldou a cidade que hoje se destaca pela força universitária, polo de serviços e qualidade de vida. Ao analisar o conjunto dessas trajetórias desde 1839 até o presente em 2026, percebe-se um fio condutor contínuo de apego à terra natal e dedicação aos cidadãos que constroem, dia após dia, o orgulho de pertencer a Formiga.

