No final do século XIX e início do século XX, o centro-oeste de Minas Gerais não era apenas uma região de relevância na pecuária e na agricultura; a cidade de Formiga tornou-se palco de um dos episódios mais singulares da história da ciência médica latino-americana. Em uma época em que o transporte dependia de ferrovias a vapor e estradas de terra batida, um médico visionário formiguense, o Dr. Evaristo Roberto de Paula, decidiu romper o isolamento geográfico e trazer para o interior brasileiro o que havia de mais avançado na física e no diagnóstico clínico mundial: a recém-descoberta tecnologia dos Raios X (Raios Roentgen).
A iniciativa colocou o município na vanguarda da radiologia médica internacional, apenas poucos anos após a descoberta formal da radiação ionizante pelo físico alemão Wilhelm Conrad Röntgen, em 1895.
A Conexão com Paris e o Desafio Logístico no Século XIX
O Dr. Evaristo Roberto de Paula, médico respeitado e graduado pelas instituições médicas do país, mantinha um olhar atento às publicações científicas europeias. Impressionado com os avanços da física aplicada à medicina, ele encomendou na Europa — mais precisamente em Paris — um aparelho completo de Raios X construído pela tradicional oficina francesa Giffe & Cie, equipado com as clássicas ampolas de Crookes e bobinas de indução de Ruhmkorff.
A chegada desse equipamento a Formiga representou uma epopeia logística e científica:
- O Transporte até o Interior: O maquinário pesado, composto por placas de vidro sensíveis, frágeis bulbos de vácuo, geradores de alta tensão e peças de ferro fundido, atravessou o Oceano Atlântico em navios a vapor, seguiu pelos trilhos da Estrada de Ferro Oeste de Minas (EFOM) e chegou ao município em caixotes de madeira rigorosamente protegidos.
- Autossuficiência Energética: Na virada de 1898 para os primeiros anos de 1900, a eletrificação pública nas cidades do interior era incipiente ou inexistente. Para fazer o tubo catódico funcionar e gerar a faísca de alta voltagem necessária à emissão dos raios, o médico precisou montar um sistema próprio de baterias químicas e geradores acionados localmente.
- Pioneirismo Clínico e Cirúrgico: O aparelho foi instalado no consultório do Dr. Evaristo e utilizado para diagnósticos de fraturas ósseas complexas, localização precisa de projéteis de armas de fogo em vítimas de acidentes e planejamento cirúrgico avançado, atendendo pacientes que viajavam semanas a cavalo de todo o estado para obter um diagnóstico por imagem.
Do Consultório Mineiro ao Acervo Internacional
Com o falecimento do médico e o avanço galopante da radiologia nas décadas seguintes — com a introdução dos tubos de Coolidge e a eletrônica moderna —, os equipamentos eletrostáticos originais tornaram-se relíquias históricas raras. Enquanto muitos aparelhos pioneiros pelo mundo foram sucateados ou desmontados para reaproveitamento de componentes metálicos, a peça de Formiga permaneceu preservada por décadas como testemunho do pioneirismo mineiro.
A raridade do conjunto chamou a atenção de historiadores da medicina e colecionadores de física instrumental:
| Etapa Histórica | Localização / Evento | Significado Histórico |
| Final do Século XIX | Paris, França (Giffe & Cie) | Fabricação sob encomenda com tubos de Crookes e bobinas de alta indução. |
| Início do Século XX | Formiga, Minas Gerais | Atendimento clínico pioneiro e realização dos primeiros exames de imagem da região. |
| Meados do Século XX | Preservação e Catalogação | Reconhecimento do equipamento como um dos exemplares operacionais mais antigos das Américas. |
| Era Contemporânea | Museus e Coleções Médicas Internacionais | Integração a acervos e memoriais históricos de radiologia nos Estados Unidos e centros globais de preservação. |
A transferência de parte desse patrimônio e a sua catalogação em memoriais internacionais de radiologia nos Estados Unidos — como acervos dedicados à história da radiologia e sociedades médicas norte-americanas — garantiram a conservação física do maquinário, impedindo que o desgaste do tempo apagasse o registro de uma das primeiras máquinas de Raio X a emitir feixes no continente americano.
Análise & O Impacto Real: A Memória Científica como Identidade Regional
Resgatar a história do primeiro Raio X de Formiga ultrapassa a mera curiosidade documental; trata-se de um exercício essencial de valorização da história da ciência brasileira:
- Descentralização do Saber Científico: O caso de Formiga prova documentalmente que o desenvolvimento técnico e a inovação tecnológica no Brasil não ficaram restritos exclusivamente às capitais litorâneas como Rio de Janeiro e Salvador, demonstrando a ousadia de médicos e pesquisadores do interior mineiro.
- Autoridade Histórica Local: O registro jornalístico dessa memória fortalece o patrimônio cultural do município, servindo de inspiração para novas gerações de estudantes, pesquisadores e profissionais de tecnologia da região.
- Preservação e Pesquisa: Documentar esses fatos com rigor acadêmico combate o esquecimento e reforça a importância de museus, memoriais e acervos históricos municipais na conservação da história da engenharia e da medicina nacional.


